Do satélite ao curral: O que o Google Maps nos ensina sobre genômica?

Por Wecksley Souza, executivo de contas da Neogen

Saindo de um hotel em Campo Grande (MS), entro no carro e no multimídia digo “Ir para o Terra Nova Eventos”. Meu objetivo é participar de mais uma edição do Megaleilão Nelore CFM. Por trás dessa simples ação estão muitas camadas de pesquisa e desenvolvimento para facilitar nossa vida. Da mesma forma que o aplicativo de navegação, a genômica busca dar mais confiança e praticidade à vida do pecuarista.

Apesar de o uso da genômica na produção animal ser uma realidade, muitos criadores ainda têm dúvidas sobre o que é essa ferramenta e como ela se aplica na fazenda. A proposta deste texto é conceituar e exemplificar a genômica fazendo um paralelo com uma tecnologia desses aplicativos que fazem parte de nossa vida, mesmo sem pensarmos para usar.

Há alguns anos, chamava muito a atenção ver os carros do Google – cheios de câmeras e totalmente adesivados – rodando pelas ruas do país. Eles estavam mapeando as principais cidades, identificando casas, imóveis comerciais, terrenos e estradas. Ao longo dos anos, esses dados foram integrados às imagens de satélite e, hoje, nós podemos até contribuir informando sobre buracos na via, acidentes e obras.

Trazendo esse raciocínio para o contexto da genômica, imagine a cidade a ser mapeada pelo carro como o genoma do animal (toda a informação genética do indivíduo), dividida em bairros, assim como o DNA se divide nos cromossomos. Em cada bairro, temos residências, praças, postos de combustíveis, farmácias e supermercados. Todos esses imóveis ou pontos de referência são os marcadores moleculares, também chamados de SNPs. O carro do Google representa o processo de genotipagem, no qual milhares desses pontos são rastreados. O mapa final resultante é o genótipo.

Pense agora em duas cidades vizinhas (dois animais). Ambas possuem uma agência do Banco do Brasil no centro. Porém, na cidade A ao lado do banco temos uma farmácia; já na cidade B, há um posto de saúde. Apesar de os dois estabelecimentos serem da área da saúde, são serviços diferentes. Na genômica, essas pequenas alterações no “endereço equivalente” ajudam a explicar as variações entre os indivíduos – por exemplo, a diferença de peso na fase de desmama. O animal A possui uma configuração genética que expressa maior potencial para peso ao desmame do que o animal B.

Em resumo, embora os animais (assim como as cidades) apresentarem muitas semelhanças entre si. Essas pequenas diferenças capturadas pela genotipagem ajudam a explicar porque determinados indivíduos são superiores em certas características, mesmo sendo irmãos próprios (filhos do mesmo pai e da mesma mãe). Essa informação permite que, mesmo sem conhecer uma “cidade” (o potencial genético de um animal jovem), seja possível chegar ao endereço desejado (a estimativa do valor genético) com segurança usando a ferramenta do GPS.

E o que isso importa para sua fazenda? Conhecer o mapa de cada indivíduo do rebanho permite identificar com clareza os pontos fortes e fracos de cada animal – principalmente das fêmeas. Isso favorece a seleção das matrizes mais adequadas ao sistema produtivo e escolha dos touros ideais para os acasalamentos. Este é o grande valor da genômica: identificar precocemente animais jovens e com maior confiabilidade.

Considerando o que já está mapeado para bovinos de corte, diversas DEPs (Diferenças Esperadas na Progênie) para características produtivas são calculadas com o uso da genômica, tais como ganho de peso e perímetro escrotal, entre outras características maternais, desempenho e carcaça. Como esses dados são frequentemente coletados no campo, os marcadores moleculares associados a eles já estão bem documentados.

Por outro lado, ainda existem ruas e avenidas, de vários bairros e cidades, por onde o “carro do Google” não passou ou as informações disponíveis ainda não estão totalmente claras. São as novas características de interesse, como resistência a doenças, adaptação ao calor, emissão de metano, eficiência reprodutiva e perda gestacional. Para mapear essas novas vias, precisamos que o veículo equipado com as câmeras continue circulando. Ou seja, precisamos continuar a medir vários animais no campo e genotipá-los para que, em breve, possamos contar com mais essas soluções.

Para que o Google Maps faça sentido, é preciso ter referência. Não adianta o carro rodar no meio de uma pastagem sem árvores ou marcos que indiquem sua localização. Com a genômica é a mesma coisa: precisa-se de um banco de dados robusto para ser interpretada e contextualizada. Quanto maior for o rigor na identificação dos animais e na coleta de dados de campo, maior será o benefício gerado pela tecnologia.

Portanto, assim como as ferramentas de navegação evoluíram vertiginosamente, a genômica tem permitido alcançar marcos que: ou demoravam muito anos para ser mensuradas, como habilidade materna, longevidade produtiva e peso adulto de vaca, ou eram muito caras e/ou complexas de medir como eficiência alimentar e rendimento real de carcaça.

Ainda temos muitas ruas e avenidas para registrar, mas os avanços atuais já nos garantem uma gestão do rebanho muito mais técnica, assertiva e financeiramente sustentável.